Sexta-feira, Junho 19, 2009

Quase 28

Faltando apenas dois meses. Ainda namoro um sonho verde celeste e a vida começa a mudar. (pra melhor)

Sexta-feira, Setembro 26, 2008

Metástase


Ela é meu anticâncer. Caminha dentro de mim, dá vida às minhas células. Dança na corrente sangüínea, deixa um rastro luminoso.

Quanto mais ela vive, mais se espalha. Quanto mais eu vivo, mais eu vivo. Living is living.

Já era, é metástase.

I'm way out, she's way in.

Domingo, Setembro 14, 2008

Dos bordados, firulas e outros adornos

"Pra sempre" é sempre metáfora. A exceção pra justificar minha regra é a morte. De resto, é tudo metáfora. Somos comparações, substituições de mundo, definições adornadas, dispersões caprichadas, não? Porque somos nós e somos todos; somos tanto...

"Pra sempre" não existe. Nunca existiu pra mim. Até agora. Metáfora. Essa coisa que temos costurado, esse entrelaçar tão delicado, tão nosso, essa colcha que nos abraça e nos deixa livres pra estarmos nus. Temos metáforas que nos cobrem. Somos todos.

Acordar derramado de bicos de peito e umbigos gigantes. Aos poucos vamos talhando ranhuras na pele por onde escorrem nossos (tre)jeitos, seus feitos, meus tentos. Somos centros e bordas. Como boas metáforas, bordados. Acordes arborizados, folhas cheias das nossas danças. Quando inteiros, somos ritmo, firula e melodia. Pacote completo. Certos, porque assim dizemos; metáforas porque assim sabemos. Somos como queremos, pertos.

Domingo, Setembro 07, 2008

Ela existe agora ou existirá na próxima Primavera

(Texto de Fevereiro de 2007)

Vou falar de alguém que não conheço. Ela tem olhos de paixão, tem a cor da paixão nos olhos sendo mais específico. Poderia se chamar Luiza se quisesse. Ou ter qualquer outro nome que me viesse à cabeça. Mora em um lugar que não conheço, tem os amigos que imagino, freqüenta lugares que só sei o nome. Mas ela existe aqui bem perto de mim. Eu acredito.

Seria a minha companheira para a vida? A mulher com a qual eu brigaria não por outros amores, mas por um café da manhã quente? A mãe de meus filhos? A mulher que contaria o dinheiro comigo? Ou riria também pela total falta dele? Seria ela vestindo aquela blusa amarela linda na fotografia? Ou seria no sonho?

Ela existe com olhares do tamanho dos árabes. Ela existe e é judia. Bailarina, Professora. Dividimos o pão agora ou talvez no futuro. Ela entende e tem ódio. Ela me ama e grita de raiva como alguém no corredor da morte. Pinta as unhas de um vermelho de fúria como Claudia me mostrou certo dia. Claudia talvez tenha sido a luz do que será essa mulher. Ou talvez essa mulher venha para mostrar que Claudia não passava de unhas coloridas.

Com ela tenho paciência. Compro frutas e livros. Cartazes soviéticos para enfeitar a casa nova. Atendo a todos os desejos da gravidez. Atravesso a cidade para ganhar um sorriso de quem ama com o coração. Converso e calo conforme a música toca no andamento dela. Será sempre quem me faz forte, homem, pai, amigo, irmão, amante. Enquanto faço com um sorriso a mulher, mãe, irmã e amiga também.

Acho que consigo entender isso tudo perfeitamente hoje. Ela também entende. Talvez leia isso e me ligue. Ou encontre comigo no meio da madrugada cantando uma canção escrita por mim ou por outro cara qualquer. Ou me escreva um texto lindo como a minha ex-mulher um dia escreveu. Ela existe e já chegou aos meus sonhos, agora para entrar na vida é só um pulo. De dimensão ou de estação.

Ela decide.

Sábado, Setembro 06, 2008

27

Hoje namoro um sonho verde celeste e a vida não precisa mudar.

Terça-feira, Maio 20, 2008

Auto-imunidade

Acho que você vai acabar nunca sabendo do que você faz aqui dentro, da minha substância inteira que se espreme e jorra no peito quando eu leio o teu nome. Você, autora das minhas crônicas diárias, que pinta e escreve, que beija e que suja os meus lençóis.

Tenho que parar de ler você nas fotografias que eu não tirei, nos poemas que eu nem sei escrever, no que eu nunca vou dizer. Eu tenho que parar. Me concentrar na minha respiração; inspirar, expirar e expurgar.

Quando você vai deixar de me inspirar?

Vou tentar me desintoxicar da tinta que você injetou debaixo da minha pele, vou deixar de escorrer você. Vou acender fogueiras, vou beber mais do teu líquido (ah se vou), serei humano, tocha. Em chamas eu vou acenar pra você fingido que é pro mundo inteiro.

E aí, quando só sobrar o essencial, o mínimo pra me deixar em pé, eu vou parar, porque as cinzas meus joelhos não beijam mais.

E o meu novo 'inteiro' será o 'intacto'. Serei pequeno, mas coeso. Morno, mas calmo. Serei em vão, mas são.

Queria acreditar que vou ser salvo da minha autopreservação.

Sexta-feira, Maio 09, 2008

"O tempo parou feito fotografia
amarelou tudo que não se movia."

Quarta-feira, Abril 23, 2008

A força de um inferno (2)

"É lenha, é fogo, é foda" - Chico Buarque

Eu sonhei muito essa manhã. Acho que os ultimos dias desaguaram em mim e eu me escorri. Nessa fase R.E.M. a sociedade Todo Poderoso-Capeta é forte. Uma dança de belzebus e potestades se arremessando na minha doce e confusa noção de vida, cuspindo suas crias oníricas na minha psiqué.

Havia brados, vontades de revolução, havia caminhos e havia você.

A primeira definição para 'demônio' do dicionário é de uma entidade da mitologia grega, uma espécie intermediária entre o natural e o divino. Eis você, a dona do silêncio cruel, das reações demoníacas (escolha um sentido). Escolha. É tudo o que a gente tem, não? É o nosso tormento, ou o meu.

Eu não sei. O cliché deve ser verdadeiro. Dizem que a grande artimanha do tinhoso foi convencer a humanidade de que ele não existia. Te reconheço pelo cheiro, pelo sabor - "so bitter and so sweet" - e pelo entrelaçar de pernas.

Mas você existe?
Não faço idéia, o inferno é uma caminhada sem referenciais.

Quarta-feira, Abril 16, 2008

Ataque Cardíaco

Ele olha o teto, a televisão, outra vez o teto. O telefone toca e ela diz que está lá embaixo, na portaria. Mesmo parecendo improvável, a vontade de descer pelas escadas chega a passar pela cabeça, o elevador demoraria muito. Ele respira, espera e segue. Ela veste-se de negro e não faz idéia do sentido todo que isso faz no contexto desse encontro inesperado, mais pra classe do que luto, bem mais, na verdade. Eles beijam, parecendo cada vez mais acostumado, lento, certo, estreito, circunstancial ou mesmo só a sensação de encontrar o lugar cativo na boca do outro.

Ela não consegue pronunciar algumas palavras exatamente, teor alcoólico alto. Ele esconde o sorriso largo dentro da carapuça de homem centrado, ela sabe como se colocar e mostra: ‘meu filho, agora é agora’ e ele, sem duvidar, aceita deixando o peito abrir ainda mais para qualquer coisa que ela diga. Com “r” completo ou não. A Cinemascope corta para o apartamento em que o rapaz recolhe livros e jornais do chão, com pressa, pensando que aquilo algum dia já aconteceu em um sonho rápido, desses que a gente só consegue sonhar no final da madrugada, e felizmente, não esquece com facilidade. Outro corte para a portaria do prédio, ela ouvindo música enquanto espera, cantando junto e sem querer transformando tudo em trilha sonora, Verve, vazando dos fones de tão alto, o porteiro com sono, perdido nos seus dias parecidos e ela já querendo subir, com a música na cabeça, para seguir a noite azulada.

O rapaz desce em close-up e sorri quando percebe que ela espera quase abraçada a uma garrafa de cerveja, ele quer dizer a ela que não sabe nem como mostrar que está feliz, que anda louco, querendo levá-la pra qualquer lugar novo, qualquer rua escura, clara, nublada, depois da chuva, com cheiro de chão, gente andando sem garoa, ou com, quer abraçar, atravessar avenidas abertas com a noite acabando, olhar letreiros coloridos e só enxergar a vontade de encontrá-la logo, ou olha-los com ela, sempre, a qualquer hora.

Como é muita coisa pra pouco tempo, ele tenta só beijar seu rosto, o maior número de vezes possível.

[continua]

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Mulheres Invisíveis (3)

Carros, chuva, distância, tempo. O frio chegando em Abril no Rio de Janeiro e pensando em ir para São Paulo, logo. Ele, o frio, sabe que os passos são sempre em direção a algum lugar. A cidade iluminada parecendo o natal, ela andando com a sensação estranha do novo, do dia que vem chegando lá no céu coberto de poluição e nuvens. Os dois bem Bela Cintra-esquina-quase-Augusta, o Metrô, os ônibus começando a aparecer no horizonte largo da maior avenida do país, os letreiros mudando de cor, eles compram cigarros e bebem refrigerante no gargalo mesmo, com sede dos passos transpostos até aqui. Ela de casaquinho cinza, seleção de cenas, número oito, a mais bonita da película.

Sábado, Abril 12, 2008

A trip to my yard

It’s nothing fancy, just a little couch and me.*

Um pedacinho aqui do meu lado, um cheiro, um aconchego. Uns cantos; os meus, os seus e os que eu tento tirar do violão. Convido para a coberta, não tenho tanto a oferecer. Um tanto de mim, compacto num cômodo, cheio de ti. Preparo alguma coisa pra comermos – não que eu já tinha qualquer destreza gastronômica, mas porque estou sempre me criando pra você e essa é a obra de hoje.

A noite (ou o dia?) decorre como esse texto, movimentos espontâneos sem pressa, um parágrafo de cada vez. E como essas palavras, o tempo jorra camicaze sem saber quando você vai se alarmar com o que sentes e enclausurar nossos momentos nos compartimentos da sua incerteza. E nos picotar e me mandar embora - mesmo esse quarto e esse texto sendo meus - alegando a não substância dos teus gestos, gritando que me amar não é coisa que essa mulher faça, ou queira fazer, e que nessa quem vai me foder sou eu.

É bom dizer: eu não acredito.
Vai ter que se esforçar um pouco mais do que isso.

* Jamie Cullum - My Yard

Terça-feira, Abril 08, 2008

Correr Perigo, Comigo.

Você talvez não entenda, acho que não dá pra entender mesmo, ninguém entende. Sei lá, é só vontade de te beijar de manhã vendo você acordar bonita desse jeito que você é, ou te abraçar no cantinho da cama antes de dormir, ou tomar um café junto assistindo televisão depois do trabalho no sofá da sala, ou ficar feliz em transar com a minha mulher, por simplesmente ser a mulher que eu escolhi, que eu quero, que eu admiro, sei lá, são milhões de motivos que eu perderia quase todas as horas dessa noite e desse dia de sono dizendo. Não deveria nem escrever isso aqui, já passou da hora de dormir, mas é foda, queria ter como conversar com você sempre, falar isso que escrevi aqui e mais uma porrada de coisas, poder dizer tudo o que eu acho do jeito mais simples. Mas enfim, só pra dizer que você é linda mesmo, com o sorriso mais bonito, que eu reparo cada detalhe em você, não adianta, que suas unhas ficam lindas quando têm cor, que a roupa que você estava usando ontem só te deixa mais bonita, e com ela posso ver melhor a sua pele, a cor da sua pele exatamente, que é linda também, tudo, tudo, tudo mesmo. Olhos, boca, cor da boca, cor dos olhos, a forma como você encara as coisas, o seu jeito de ser sempre diferente de mim, mas não desigual, o quanto você pode ser inteligente, esperta e até dominar o mundo se quiser. Sei lá, só mesmo pra dizer que você estava linda ontem e é linda todos os dias. Sempre. Vou dormir agora antes que passe da conta. Beijo, beijo.

Mulheres Invisíveis (2)

Elena disse que a vida era assim e foi. Tem problemas pra sentir as coisas, se injeta dormências. Gosta de frutas de gosto explosivo, mas engole com tanto cuidado que só sobram faíscas. Tem um sorriso de abrir o Mar Vermelho e mamilos em busca de devotos. A única coisa que ela sabe é onde mora.

***

Sabrina nasceu do sexo casual entre o Etna e A Fantástica Fábrica de Chocolates. Fala três idiomas, eu nunca entendi nenhum deles. Nos comunicamos pela escala Richter. Além disso, seu corpo sempre foi muito digno de minhas erupções particulares. Seu sabor vem de dentro, escorre pra vida sem nenhum pudor. Sempre guarda o melhor pro fim.

***

Liana é linda que nem o início do planeta. Ela traz à tona meus instintos paleozóicos. Tem a gravidade de um buraco negro. Ninguém nunca soube ao certo se ela existiu ou se o impacto foi da mudança de uma era. Foi uma fenda e um meio. Liana sempre foi uma promessa.

Mulheres Invisíveis

Eu pedi gentilmente e Mel reagiu. Eu posar pra você?, não quero sair nas tuas fotos, você sabe que tenho medo. Linda, se assuste o quanto quiser, eu não vou te fotografar, vou te escrever.

***

Luna tem estrelas na pele, ela despe constelações. Quando nua, se veste de céu. Dois astros-rei rosas me encaram e há uma supernova na porção meridional da abóbada celeste. Ah sim, ela às vezes explode.

***

Anna eu acabei de encontrar, eu não a conheço. Anda devagar, pisa doce, moves like honey. Mas o movimento derrete todas as coisas à sua volta. O mundo ao seu redor está todo borrado. Qualquer convergência é dela. Da luz, do samba, dos deuses.

Sexta-feira, Abril 04, 2008

Paulo & Alice

Na manhã do dia seguinte, ao voltar para o apartamento onde planejava encontrar-se com ele, Alice estava com o coração aos pulos e caminhava em direção oposta ao desfile militar de 25 de agosto, o Dia do Soldado. Foi um momento poético, um signo dizendo que se houvesse bom senso ela daria meia-volta e seguiria a parada.

Mas ela foi em frente, no sentido contrário ao da correnteza, para nunca mais voltar.

Sábado, Março 29, 2008

The Beautiful and the Damned

“Acho que tudo depende do movimento dos corpos”

Ela disse já descendo as escadas da casa ao lado da casa antiga na Rua Henrique de Novaes. Movimento requer transformação, transmutação a cada segundo de sentido ou som, se o universo se expande, os corpos estão naturalmente ligados à necessidade de deixar o instante anterior no passado. Aliás, passado não existe na Física. Só presente.

Claro que quando falamos de razão, ou racionalidade, o buraco é mais em baixo; ninguém pode dizer com confiança que apagar marcas (que na verdade são pequenas partes do que você é) pode ser possível, ou até mesmo necessário. Deixar pedaços seus pelo caminho é um ritual cotidiano, agora, deixar os pedaços que você gosta, que representam de alguma forma o significado de tudo que você acredita, parece mesmo improvável. Entendo bem isso. Só que acredito também no movimento, ou além, acredito que isso faça parte de um processo maior de transformação. O instante anterior deixa o agora e o amanhã fazerem sentido, a forma só nasce da função, senão é um fruto estéril. Tudo depende mesmo da movimentação dos corpos, todos os dias, e é assim que as coisas devem seguir. E ponto. Este parágrafo serviu para encerrar um ciclo pra mim. E daqui pra frente, nesse texto e na vida, só quero falar de coisas novas. A minha escolha é pelo movimento, não importa como ele aconteça. E ponto grande outra vez, pra encerrar mesmo.

Agora eu quero dar passos menores, ver as coisas de um ângulo mais próximo, mais íntimo, conhecer os detalhes do seu vestido preto de perto, saber se os desenhos são bolinhas ou apenas pequenos pontos no tom escuro do tecido, fazendo sua pele contrastar e refletir a luz daquela casa como se fosse um espelho d’água. Existiu um momento naquela noite em que a resposta mais simples para a sua pergunta sobre nós, bateu na minha cara. Eu escolheria você pela felicidade de dividir qualquer coisa com você. Eu quero dividir a minha esperança, te dar metade de tudo, poder procurar a insanidade de um dia formar alguma coisa, ou só mesmo acreditar que posso ser uma parte de você, eu só quero ser uma parte aí dentro de você. Uma parte que te leve a outros lugares, que ajude a procurar a confiança perdida nas pessoas, e que essa divisão entre os corpos seja necessária, porém indesejável.

Eu queria era sentir preguiça de me separar, de ir embora, de te deixar ir embora, de querer te deixar parar de querer ir até um pouco mais longe comigo. Eu queria poder tanta coisa com você, ficar mais forte, mais seguro de que posso escolher uma outra parte pra mim só pela vontade de ter essa outra parte. Enfim, eu só queria que as coisas legais que a gente imagina pudessem acontecer naturalmente. Só acontecer mesmo, devagar e sempre. E isso, realmente, depende do movimento. No caso, o nosso.

Voltei pra casa querendo procurar uma coisa que o Gore Vidal disse sobre um casal que ele considerava mal sucedido, achei e tenho a obrigação de colocar no meio disso tudo: “Zelda (Sayre) e Scott (Fitzgerald). Estranhamente, Zelda e Scott deveriam combinar perfeitamente, no sentido platônico. Como isso não é possível para nós, cada um dos dois se tornou a sombra do outro, e apesar do desejo e da busca recíprocos, nunca chegaram a formar um todo”.

Acho que ele não entendeu que formar um todo era o ponto menos importante entre os dois, talvez a conseqüência mais tola e previsível. O que os transforma em motivo para dizer isso que eu digo agora, é a vontade básica de dividir alguma coisa incondicionalmente com outra pessoa, nem que seja um ideal. E quando eu olho pra você, dizendo qualquer coisa e achando graça, é nisso que penso.

Nós dividimos ideais. E pronto. Acho que além disso, não existe muito mais pra dizer ou argumentar. Não precisa existir um todo, só o movimento pra tentar sê-lo.

Quinta-feira, Março 20, 2008

bate-papo pré-mergulho-pós-beijos-efervecentes

- Mas você sabe que não vai dar certo. [suspiro] Isso não vai dar certo...

- Meu amor, a morte dá certo. Até lá a vida dá errado.

Domingo, Março 16, 2008

A força de um inferno

"Porque um mundo todo vivo tem a força de um Inferno."
Clarice Lispector

Fui criado direitinho, sempre fui à igreja. Desde que me lembro, estava eu toda semana na escola dominical da Igreja Metodista. Sempre fui relativamente íntimo do pentecostalismo: as 'línguas estranhas', a expulsão de 'espíritos malignos', as obras do Espírito Santo, vi tudo de perto. Não contem pra minha mãe, mas todos aqueles anos de culto não me ajudaram muito.

Mês passado eu me apaixonei por um demônio.

Ela é sim uma divindade decaída, uma outcast do paraíso, muito bem educada pelo capeta a falir almas, esgotar espíritos. A começar porque você tem escolha. A opção é sua a sucumbir àquela bomba de estímulos, àqueles (grandes) lábios incandescentes.

Minha morte não se dá por colisões de trens, não é a explosão de um cargueiro. É lenta, muito mais lenta. É a longo prazo, é Parkinson, é o vazamento de uma usina nuclear, gerando essas minhas vidas deformadas, filhas dessa chernobyl particular.

Amá-la é de um envenamento contínuo.

[continua(?)]

Quarta-feira, Março 12, 2008

Nine out of ten movie stars make me cry

I’m alive.

E vivo agora no Solar da Fossa onde Caetano plantou folhas de sonho e Leminski colheu. O dinheiro é contado pra café, comida e cigarro. Cerveja quando sobra alguma coisa. Durmo ao lado da garota vestida pra viagem nos encartes de compact disc e ela me masturba com as unhas pintadas de esmalte rosa. O mundo que era jardim virou caderno de classificados de domingo, cheio de caminhadas longas até empregadores dizendo bobagens que os tornaram donos de alguma coisa. É cedo demais para a loucura e tarde demais para a poesia. Pro amor então, nem se fala.

Quando atravesso o túnel, vejo uma Copacabana iluminada pela manhã que apaga as cores de quem ganha a noite como eu já ganhei um dia, com o coração de primeira viagem, agora calejado só suporta os dias de segunda à sexta, essa coisa toda de vida real, sem cruz do Pilarzinho, nem ilusão de novos tempos, o trabalho deve aparecer logo, mas o sonho garante que não vai parar de produzir. Guardei esse ensinamento para não tentar o caminho mais óbvio. Aqui vai o poder de imaginar a força interior suportando a construção de um edifício pálido de concreto armado onde ainda existe o meu peito. Meio machucado, ele persiste. Ninguém compreende ou me conhece.

O Solar no meu peito ainda não é coluna alguma do Rio Sul.

Sexta-feira, Março 07, 2008

Focos

Foi preciso um tempo mas eu me dei conta de que aqui eu sou o homem e você a menina. Passei tempo demais intimidado, tantos compassos (te) esperando.

Descobri coisa triste, coisa funda, coisas francas, coisas lindas...
Mas amar essa volatilidade, esse tanto-me-que-nem-me-quer, essa porra toda dói e cansa. 

Há esses ciclos, essas semanas em que você está fora de foco; eu te olho e fico nauseado. É a minha retina sem danos ou a tua personalidade embaçada? Quando está perfeito e a realidade vira aquele borrão: é você nítida ou eu desfocado?

Me sinto personagem de um filme do Wong Kar-Wai.